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A Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

A adolescência é a ponte entre a infância e a idade adulta. Enquanto alguns cruzam essa ponte perfeitamente, outros acham isso um desafio. Na maioria das vezes, é uma mistura de ambos. No final da ponte está a autoidentidade. Vamos discutir nesse artigo a dura verdade da série Adolescência, da Netflix que foi lançada no Brasil em 13 de março de 2025, abordando de forma profunda e sensível as complexidades dessa etapa da vida.

A série Adolescência é composta apenas por quatro episódios e narra a história de Jamie Miller, um garoto de 13 anos acusado do assassinato de sua colega de classe, Katie Leonard. Vamos entender ao longo desse artigo as suas motivações……

Ao longo dos episódios, são explorados temas diversos como a linguagem própria usada pelos adolescentes nas redes sociais como incel, redpill, rope, truecel, blackpill, além das relações familiares, influências negativas das redes sociais, bullying, masculinidade tóxica e os perigos que vem ocorrendo através da radicalização online.

A maioria das linguagens expostas acima carregam conotações misóginas, racistas ou extremamente pessimistas, e muitos usuários dessas comunidades estão em sofrimento psíquico genuíno, embora canalizado de forma destrutiva, agressiva e hostil.

Muitos pais podem ficar chocados com o retrato da vida online dos adolescentes e o sofrimento que isso pode lhes causar. Se você está preocupado com seu filho(a), eu apresento alguns esclarecimentos e aconselhamentos através dos exemplos da Mini-Série Adolescência.

Para compreender em maior profundidade a série Adolescência,  temos que antes de tudo compreender o desafio de ser um (uma) adolescente, que é o atravessamento de uma fase complexa do desenvolvimento humano para se chegar ao final dessa fase com uma sensação de saber quem se é ….para assim se poder alcançar a autoidentidade, a autoaceitação e a estabilidade emocional para tocar a vida na fase adulta. Ok?

As qualidades construídas dos jovens adolescentes, as suas experiências, o ambiente em que crescem, os modelos referenciais em suas vidas, a turbulência emocional que vivenciam e a quantidade de orientação consistente que recebem dos pais; tudo isso contribui para ajudá-los a fazer essa jornada com sucesso.  Mas vamos agora nos concentrar novamente no enredo da série Adolescência…e vermos o que aprendemos com ela….

 Temas Centrais da Série Adolescência e Reflexões

para os Pais:

  • Relações Familiares e Comunicação

A série Adolescência da Netflix, destaca a complexidade das relações familiares, especialmente dentro do contexto exibido no drama que mostra um evento traumático como o assassinato de uma garota adolescente cometido por outro adolescente que era seu colega de classe.

A história da série nos mostra o casal Eddie e Manda, que enfrentam a difícil tarefa de conciliar o amor incondicional pelo filho adolescente de 13 anos que matou a amiga de escola também adolescente. Esses pais em profundo sofrimento confrontam a possibilidade de terem culpa num crime impactante cometido pelo filho de 13 anos.

Essa dualidade que esses pais vivem, de amor e de culpa,  ressalta a real importância e necessidade da comunicação aberta e honesta entre pais e filhos no mundo contemporâneo.   

“Adolescência”  realmente sugere que, mesmo em famílias aparentemente funcionais, podem existir lacunas e sombras significativas na compreensão mútua entre o grupo, enfatizando a necessidade dos pais de crianças e de adolescentes estarem sempre muito atentos às vidas e às emoções de seus filhos.

Assista a A Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

  • Influência das Redes Sociais e Radicalização Online

A trama da mini-série Adolescência acende para todas as famílias um farol vermelho de perigo, ao abordar de forma contundente como as redes sociais podem servir como terreno fértil para a disseminação de ideologias prejudiciais e tóxicas aos adolescentes. Eles realmente podem virtualmente adentrar uma “terra de ninguém” e serem sequestrados….mentalmente!!!!!!!!!

Jamie, o menino adolescente central da trama, é retratado como um jovem de 13 anos fortemente influenciado por comunidades online tóxicas, especificamente associadas à subcultura “incel” (celibatários involuntários), que propagam visões misóginas e podem incentivar comportamentos violentos.

DEFINIÇÕES:

  • Misoginia:
Ódio, desprezo ou preconceito contra as mulheres. A palavra vem do grego: “misein” (odiar) + “gynē” (mulher), e pode se manifestar de várias formas — algumas muito explícitas, como violência ou discursos de ódio, e outras mais sutis, como a desvalorização da opinião feminina ou a objetificação da mulher.
  • Incel:
Involuntary celibate, ou “celibatário involuntário”. Alguém que, segundo essa ideologia, deseja relações sexuais ou amorosas mas é sistematicamente rejeitado pelas mulheres. O termo inicialmente tinha uma conotação neutra, mas hoje está fortemente associado a grupos online com discursos misóginos (ódio às mulheres).

Alguns estudiosos analisam a sub-cultura incel como parte de um fenômeno mais amplo de crise de masculinidade, isolamento social e efeitos da hiperconectividade virtual. Ao mesmo tempo, muitas plataformas baniram comunidades incels por incitação ao ódio e incentivo à violência.

Essa representação alerta para os perigos da radicalização digital e ressalta a importância dos pais monitorarem e dialogarem sobre o conteúdo que seus filhos consomem na internet.

  • O que é Realmente a Subcultura INCEL?

A subcultura “incel”, abreviação de “involuntary celibate” (celibatário involuntário), refere-se a uma comunidade predominantemente online composta por indivíduos, majoritariamente homens heterossexuais que propagam a misoginia.    Assista a Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

Eles se identificam como incapazes de estabelecer relacionamentos íntimos ou sexuais com mulheres, apesar de desejá-las. Essa frustração é frequentemente acompanhada por sentimentos de ressentimento, misoginia e, em casos extremos, apologia à violência.

  • Muitos relatam frustrações reais com rejeições, bullying, exclusão social ou dificuldades em interações românticas — especialmente na adolescência. Isso, somado à ausência de suporte emocional ou modelos masculinos saudáveis, pode gerar raiva e sensação de inadequação.
  • Muitos incels têm uma visão muito negativa de si mesmos — aparência, status, inteligência — e acreditam que são “geneticamente condenados” a nunca serem amados ou desejados. É comum a presença de quadros como depressão, ansiedade social e transtornos de personalidade (embora nem todos tenham diagnósticos clínicos).
  • Vivemos numa cultura hipervisual, em que aplicativos como Tinder priorizam aparência. Isso reforça a ideia de que só “os mais bonitos” são escolhidos. Os incels, ao não se sentirem dentro desse padrão, concluem que estão automaticamente excluídos.
  • Em vez de lidarem com dor emocional, insegurança e frustração de forma construtiva, muitos incels adotam teorias fatalistas e misóginas que culpam as mulheres (ou a “sociedade”) por sua solidão.

  • O que é a tal da regra do 80/20 dos Incels?

    A “regra 80/20”, segundo os incels, afirma que:

    80% das mulheres estão interessadas apenas nos 20% mais atraentes dos homens.

    Eles acreditam que a maioria das mulheres só quer se envolver com “Chads” (os homens mais bonitos, ricos ou populares) e que os 80% restantes dos homens são ignorados, descartados ou usados apenas como amigos ou provedores.

    Essa ideia é inspirada no Princípio de Pareto, uma regra econômica que diz que 80% dos resultados vêm de 20% das causas — mas os incels a distorcem completamente para aplicá-la ao “mercado sexual”.

  • Origens e Evolução da Subcultura INCEL

O termo “incel” foi cunhado na década de 1990 por uma mulher canadense conhecida pelo pseudônimo “Alana”, que criou um fórum online para discutir experiências de solidão e dificuldades em relacionamentos.

Inicialmente, o espaço era inclusivo e voltado para ambos os gêneros. Contudo, ao longo dos anos, a comunidade incel evoluiu para um grupo predominantemente masculino, com discursos cada vez mais misóginos e hostís.

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy4l5np5qe8o

  • Crenças e Narrativas Comuns da Subcultura INCEL

Os membros da subcultura incel frequentemente compartilham uma visão de mundo pessimista e fatalista em relação às suas perspectivas românticas e sexuais.

Algumas das crenças e terminologias comuns incluem:​

  • “Chads” e “Stacys”: Termos pejorativos usados para descrever homens e mulheres considerados atraentes e bem-sucedidos nos relacionamentos.

  • Determinismo Biológico: A crença de que fatores genéticos e características físicas determinam irrevogavelmente o sucesso ou fracasso nos relacionamentos.

  • Misoginia: Uma visão negativa e, muitas vezes, odiosa em relação às mulheres, culpando-as por suas próprias dificuldades românticas.

  • Ideação Violenta: Embora não seja universal, há casos em que membros expressam ou glorificam atos de violência como forma de vingança contra a sociedade ou mulheres em particular.

Impacto e Casos Notórios da Subcultura INCEL

A subcultura incel ganhou notoriedade devido a incidentes violentos associados a indivíduos que se identificavam com o movimento.

Um dos casos mais conhecidos é o de Elliot Rodger, que, em 2014, matou seis pessoas em Isla Vista, Califórnia, deixando um manifesto detalhando seu ressentimento em relação às mulheres e sua frustração sexual.

Conheça o Caso: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy4l5np5qe8o

Esse e outros incidentes similares trouxeram atenção para os perigos potenciais associados a comunidades online que promovem ideologias misóginas e violentas.

  • ​Considerações Para Reflexão sobre Subcultura INCEL

A subcultura incel definitivamente representa um fenômeno da internet muito complexo e que reflete questões mais amplas relacionadas a gênero, sexualidade, saúde mental e o impacto devastador das comunidades online.

Embora nem todos os indivíduos que se identificam como incels sejam violentos ou promovam ideologias extremistas, é crucial reconhecer e abordar as narrativas mais prejudiciais que emergem desses espaços para poder prevenir potenciais danos à sociedade.

  • Masculinidade Tóxica e Pressões Sociais

Jamie, o personagem do adolescente na mini-série Adolescência, enfrenta expectativas conflitantes sobre o que significa “ser homem”, muitas vezes internalizando comportamentos agressivos como forma de afirmar sua identidade masculina.

A série convida os pais a refletirem sobre os modelos de masculinidade que apresentam aos filhos e a importância de promoverem uma compreensão saudável e equilibrada do que é ser homem.

  • Vamos Entender Aquela Sessão de Terapia Irrealista!!!!

No episódio 3 da mini-série Adolescência,  o adolescente Jamie,  preso num Centro Juvenil de Custódia, tem uma sessão de psicoterapia com a psicóloga,  que está analisando-o para que assim possa construir um relatório sobre a sanidade mental dele para ser entregue ao Tribunal. Vale lembrar que essa mesma psicóloga já havia o visitado anteriormente, mas o drama nos mostra somente essa sessão com o adolescente.

Minha Observação Profissional: Como psicóloga,  achei esse episódio o mais difícil de acreditar; pois não tenho certeza se os roteiristas consultaram um psicólogo de verdade sobre a precisão desse cenário terapêutico que foi construído para a série. Eu creio que não….e explico para vocês…

Primeiro, você como psicólogo(a) jamais levaria a bebida favorita do seu cliente, especialmente quente como foi apresentado na cena, pois você correria o risco dessa bebida ser jogada em você.  Aquele sanduiche caseiro também não seria feito e entregue para o paciente, mesmo que ele estivesse retidos num Centro de Custódia.

Em segundo lugar, quando a psicóloga saiu da sala, ela deixou sua bolsa com todas as anotações e o seu casaco também,  justamente num contexto absolutamente disponível para ser mexido pelo adolescente. Geralmente isso não é considerado uma boa prática clínica ou uma prática segura, principalmente pela custódia policial de um detento,, mesmo que um garoto de 13 anos acusado de assassinato. Todo cuidado é necessário.

A psicóloga ter deixado ali naquela sala da terapia a sua pasta com todas as suas anotações sigilosas sobre o garoto e todos os seus papéis documentais do caso, especialmente quando Jamie já havia exigido rudemente em ver as anotações dela, é pensar que ela deixou disponível algo confidencial que poderia ter sido apropriado por ele.

Da mesma maneira, naquela bolsa certamente havia pelo menos uma caneta, e que naquela condição teria todo o potencial de ser achada por ele. Uma caneta pontiaguda poderia colocá-la em perigo pois ela  dialogava com um suposto assassino….

Terceiro, não seria permitido que um psicólogo ficasse sozinho com Jamie — que ali é acusado de assassinato, afinal, ele é mostrado na trama (assim como seu pai) como alguém que tem fortes problemas de regulação emocional.       Assista A Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

Quarto, havia da parte da psicóloga inúmeras perguntas delicadas sobre masculinidade e sexualidade, e ali a maneira que ela abordou para uma avaliação psicológica….. transmitiu uma certa inadequação na forma que construiu o diálogo….

Por fim, o adolescente não ter concordado com o número de sessões de avaliação que ela comunicou a ele e com seu papel naquele cenário terapêutico, pareceu errado em termos de um menino emocionalmente vulnerável se apegar/desenvolver confiança com alguém que apenas o avaliava, especialmente uma mulher como a psicóloga. Vale lembrar que ele é um incel…

Análise sob a Perspectiva Psiquiátrica:

  1. Bullying e Saúde Mental: A série destaca o impacto do bullying na saúde mental dos jovens. Jamie enfrenta isolamento e humilhação na escola, fatores que podem contribuir para transtornos como depressão e ansiedade. A American Psychiatric Association enfatiza que experiências de bullying estão associadas a um risco aumentado de problemas de saúde mental, incluindo pensamentos suicidas.

  2. Influência das Redes Sociais: “Adolescência” ilustra como as plataformas online podem amplificar sentimentos de inadequação e solidão entre adolescentes. A exposição constante a padrões irreais e a busca por validação podem levar a um declínio na autoestima e ao desenvolvimento de transtornos depressivos. Estudos publicados no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry indicam uma correlação entre o uso excessivo de redes sociais e sintomas depressivos em jovens.

    • Transtorno depressivo persistente (distimia)

    • Ideação persecutória

    • Transtorno de adaptação com humor deprimido

    • Sofrimento emocional associado a traumas sociais

      O que Jamie Apresenta, então?

      Segundo análises de fontes psiquiátricas e psicológicas americanas, como Psychology Today, National Institute of Mental Health (NIMH) e American Psychiatric Association (APA), o comportamento de Jamie, o adolescente da mini-série Adolescência pode ser entendido a partir de fatores múltiplos como o que apresentarei abaixo:

      1. Isolamento social e baixa autoestima

      Jamie é mostrado como um adolescente solitário, rejeitado pelos colegas e sem um círculo de apoio. A psicologia do desenvolvimento aponta que essa fase da vida é marcada por uma necessidade intensa de pertencimento. A rejeição contínua pode gerar sentimentos de inadequação e raiva — não patologias em si, mas sinais de sofrimento.

      2. Influência de comunidades online tóxicas (subcultura incel)

      Jamie se envolve com fóruns da internet que reforçam o discurso de misoginia, vitimização e revolta. Segundo a American Psychological Association, comunidades como a “incel” funcionam como “câmaras de eco” para indivíduos vulneráveis, exacerbando ideias negativas e, em casos extremos, influenciando comportamentos violentos.

      3. Falta de vínculo emocional familiar

      Embora os pais de Jamie estejam presentes fisicamente, a comunicação é falha. Há uma ausência de espaço emocional seguro. Isso fragiliza a capacidade do adolescente nomear e elaborar suas angústias. Segundo a AACAP (Academy of Child and Adolescent Psychiatry), relações familiares protetivas são fundamentais na prevenção de transtornos mentais em jovens.


      🩺 Diagnóstico? A série não fecha questão.

      A série não apresenta um diagnóstico clínico fechado para Jamie — o que é coerente com uma narrativa que busca mais levantar reflexões à todos do que oferecer respostas prontas.

O que é Ser Adolescente Hoje em Dia?

Desrespeito como uma Preocupação Social e de Desenvolvimento

na Fase da Adolescência

A falta de respeito é um tema recorrente na adolescência em si , manifestando-se em vários cenários: nas escolas, onde os alunos são comparados a prisioneiros em uma “cela de detenção”; em relação a figuras de autoridade, incluindo pais, professores, autoridades policiais e profissionais de saúde mental; por meio de violações digitais, como sexting ou cyberbullying; e desrespeito e violência sistêmica, principalmente em relação a meninas e mulheres.

Pesquisas sobre comportamento adolescente sugerem que o respeito não é inato, mas aprendido por meio de interações sociais. Teorias de aprendizagem social (como a de Albert Bandura) enfatizam que comportamentos, incluindo desrespeito, são modelados e reforçados por fatores ambientais.

Falta de modelos respeitados, exposição a figuras de autoridade inconsistentes, baixa autoestima, necessidades emocionais não atendidas e influências digitais generalizadas podem contribuir para uma quebra no respeito mútuo.  Assista a Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

A fase da adolescência  destaca a importância de figuras paternas emocionalmente engajadas para os meninos. Embora professores homens possam muito bem preencher esse papel como alternativas, na série, professores homens são ineficazes ou autoritários, muitas vezes incapazes, devido às pressões que enfrentam, de se concentrar nas emoções subjacentes aos comportamentos que estão sendo expressos – portanto, só podemos supor, deixando um espaço para homens dominantes na arena online intervirem.

O respeito é essencial para moldar o desenvolvimento do adolescente. Pesquisas  indicam que ambientes que enfatizam o respeito mútuo promovem a segurança emocional, a competência social e a tomada de decisões éticas.

Limites claros e disciplina justa ajudam os adolescentes a construir confiança, conexões emocionais e resiliência. Quando o respeito está ausente, os adolescentes podem ter dificuldades com a tomada de perspectiva e a empatia, o que pode levar a um comportamento antissocial ou retraimento, bem retratado na mini-série Adolescência.

O Papel da Vergonha na Formação da Identidade de um Adolescente

A vergonha é outro tema central, permeando quase todos os aspectos da fase dos adolescentes . Isso inclui vergonha social, como não ter amigos ou falta de presença nas mídias sociais; vergonha familiar, como ter pais bem-intencionados, mas não compreensivos; pais não envolvidos ou o que significa ter um parente na prisão; vergonha gerada por colegas, incluindo bullying, cyberbullying, xingamentos ou intimidação.

Mais significativamente e retratado como o motivo central e mais doloroso de assistir, há vergonha pessoal do adolescente de 13 anos, incluindo sentimentos de falta de atratividade, fraqueza e rejeição social.

Nós psicólogos sabemos que a vergonha é uma emoção poderosa e profundamente social que influencia significativamente pensamentos, comportamentos e saúde mental. A vergonha é internalizada e impacta o autoconceito de um indivíduo.

Adolescentes em geral são vulneráveis ​​à vergonha devido ao processo de desenvolvimento de formação de identidade. Quando a vergonha é agravada pela rejeição ou fracasso social, ela pode contribuir para a depressão, ansiedade e mecanismos de enfrentamento mal-adaptativos, incluindo comportamento online de risco.                                                                                                                                                                      Assista a Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

Identidade, Desrespeito, Vergonha e Espaços Digitais

Não há dúvida de que há uma ameaça externa na forma de mídia e interações online que precisa de monitoramento adulto, supervisão, censura e lista negra selecionada. Para um adolescente vulnerável que está tentando negociar seu senso de identidade de uma perspectiva já falha, escapar online fornece consolo, pois ele vê como o potencial de se buscar validação e se envolver finalmente em comportamento de risco.

O fato de que a maioria dos adultos sabem pouco sobre o mundo online dos adolescentes,  significa que esses mesmos adultos são incapazes de oferecer proteção, da maneira que normalmente fariam.

Pesquisas sugerem com bastante fundamentação que interações online podem intensificar sentimentos de inadequação, particularmente quando adolescentes dependem do engajamento social para a construção da autoestima.

Além de saber mais, os adultos devem se envolver ativamente e entender o papel dos cenários digitais para que seus jovens forneçam a supervisão e o suporte necessários. No entanto, não é útil para nós colocar o problema puramente “lá fora” em um mundo digital.

MAS…….Algo Pode Ser Feito!

Embora  a mini-série Adolescência  retrate uma fatia perturbadora de adolescentes da vida moderna, ela não é totalmente representativa da norma, ou seja, do todo. Certas vulnerabilidades – dentro de indivíduos, famílias, grupos de pares e ambientes escolares – certamente convergem para produzir os resultados devastadores retratados na série.

No entanto, medidas proativas podem reduzir esses riscos. Elas incluem:

– cultivar ambientes respeitosos através de escolas, famílias e comunidades,

– enfatizar o respeito mútuo por meio de modelos positivos e orientação consistente;

– estabelecer limites claros, uma vez que os adolescentes necessitam de ambientes estruturados com expectativas e consequências claras para apoiar seu desenvolvimento emocional e social;

– envolvimento dos pais e da comunidade por meio de comunicação aberta, fornecendo orientação para navegar nessa jornada de desenvolvimento complicada, garantindo que eles não recorram apenas a colegas ou figuras anônimas online em busca de orientação;

– educação sobre como entender os riscos digitais para que possam monitorar, supervisionar e apoiar os jovens on-line de forma aberta e eficaz.

Por fim,  a mini-série Adolescência  destacou a importância de adultos importantes na vida de um adolescente estarem disponíveis para atender às suas necessidades emocionais, ajudá-los a combater influências tóxicas concorrentes e capacitá-los à navegar em sua jornada rumo à vida adulta de maneira saudável desde uma idade mais precoce.       A Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

  • Entenda: Nem Todas as Comunidades Online

                                       !!!são Negativas!!!

É importante lembrar que comunidades online, assim como as comunidades da vida real, podem ser lugares incrivelmente solidários. Comunidades solidárias podem oferecer uma sensação de segurança e conexão, reduzir o isolamento e dar uma sensação de propósito.

Comunidades online têm a vantagem de conectar pessoas com interesses ou experiências compartilhadas que podem estar geograficamente distantes, e muitas pessoas acham mais fácil se expressar online.

Não ter que usar sua própria identidade ou nome pode encorajar uma auto-revelação mais honesta do que conversas presenciais, o que pode ser particularmente útil para grupos marginalizados.

Mas…. Conteúdos e Culturas Perigosas Florescem Online!!!

Nem todas as comunidades online são saudáveis, como a mini série Adolescência nos mostra.

Embora os sites muito odiosos possam ser preenchidos por apenas alguns milhares de usuários, sua influência se espalhou para partes comuns da internet. Eles normalizam comportamentos que são prejudiciais tanto para a saúde mental dos membros quanto para aqueles afetados por seu comportamento.

E, inversamente, há um caminho claro onde, de conteúdo aparentemente inocente com o qual os jovens começam a se envolver, como material de ginástica e fitness, para conteúdo mais sinistro baseado no ódio por mulheres, pessoas LGBTQ+ e pessoas de etnias diferentes. Embora os caminhos sejam conduzidos em parte por algoritmos, os jovens também são cinicamente manipulados por sites vinculados que trabalham juntos.

O Que Realmente os Pais Podem Fazer?

Primeiro, saiba o que existe  lá fora. Embora eu definitivamente não encorajaria ninguém a procurar sites de ódio na internet, mas estude o atual glossário dos adolescentes pois pode ser útil. Aprenda o significado  dos termos incel, bluepill, chad, looksmaxxing, que pode ajudar vocês a entenderem as culturas online.

Buscar esse conhecimento ajuda a saber sobre as plataformas mais comuns e entender como seus filhos se envolvem com elas.

Em seguida, converse com seus filhos sobre o que eles estão fazendo online e como isso os faz sentir. Seja curioso sobre o que seus filhos gostam nos sites e fóruns que eles visitam.

Incentive-os a refletir se as comunidades das quais eles fazem parte parecem saudáveis ​​ou não….

A Mental Health America tem um ótimo recurso que sugere que uma comunidade online saudável deve fazer alguém se sentir seguro, responsabilizar todos, ser um espaço onde você se sinta conectado aos outros, alinhado com seus valores como pessoa, e não drenar você ou fazer você se sentir mal consigo mesmo.

Incentive seu filho a continuar revisando se o que ele está fazendo online ainda parece certo e o melhor para ele, porque as comunidades mudam com o tempo.

Converse com seus filhos também sobre diretrizes apropriadas para a idade deles e ajude-os a entender como eles podem mudar as “bolhas” do algoritmo se sentirem que estão vendo excessivamente um tipo específico de conteúdo.    A Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

O que a Sociedade Precisa Fazer?

Atualmente, os materiais e treinamentos dados aos professores, e a natureza da educação sobre segurança online como parte da educação Pessoal, Social, de Saúde e Econômica, estão falhando com nossas escolas e nossas crianças, levando a impactos devastadores na saúde mental.

Ensinar sobre comunidades online e segurança online de forma mais ampla deve ser um requisito legal para escolas. As escolas devem qualificar professores e crianças para que discussões relevantes, significativas e apropriadas para a idade possam acontecer na sala de aula.

O monitoramento regular do bem-estar mental de alunos e professores nas escolas daria informações vitais para entender tendências e onde ações são necessárias.

Há um movimento crescente para proibir celulares nas escolas. Concordo que atualmente os smartphones simplesmente não são seguros para as crianças. No entanto, proibi-los nas escolas resolveria apenas uma pequena parte do macro problema.

Precisamos dar aos jovens as habilidades e a confiança para navegar na internet com segurança e reconhecer culturas prejudiciais quando as virem.

E precisamos que o governo garanta que o conteúdo mais prejudicial seja devidamente regulado e removido de toda internet.      A Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

Adolescência é uma dessas grandes mini-séries de TV que envolve as pessoas por si só, mas também impulsiona um debate nacional sobre questões importantes.

Existem poucas questões mais importantes do que a segurança e a saúde mental de nossas crianças e jovens. Vamos garantir que essa discussão leve à ações muito necessárias e mudanças significativas.

Questões a considerar:

  • Quem são os colegas da sua criança?

  • Quais são os hobbies, os tópicos de interesse de seu filho adolescente?

  • A sua criança fica sozinha com frequência e a internet se torna uma companhia?

  • Quem no seu ambiente doméstico é mais especialista em internet? Deixe que essa pessoa lidere algumas sessões de treinamento protetivo para toda a família. Esse é um contexto em que crianças podem ser preparadas.

  • Quando você fez treinamento sobre segurança online com a sua família? Você já incluiu questões defensivas nesse treinamento?

Se você não tem conhecimento especializado obtenha-o de fontes confiáveis ​​e lembre-se de que o mundo online está em constante mudança e a exploração infantil está cada vez mais sofisticada, portanto, atualizações regulares são cruciais.

Muitas informações que estamos aprendendo sobre o mundo da misoginia violenta podem ser assustadoras – e quaisquer meios que usemos para compartilhar nosso conhecimento, precisamos equilibrar o compartilhamento de informações com a não disseminação do medo.

Meninos e Saúde Mental: Enfrentando a Crise Crescente

Incels, a pílula vermelha e a manosfera – todos termos bem recentes, mas na verdade isso vem crescendo há anos. Costumávamos chamar isso de sexismo e machismo, e mulheres têm sido prejudicadas e assassinadas por homens desde o início dos tempos.

É por isso que a Violência Contra Mulheres e Meninas está na agenda de muitos governos mundiais há anos. A diferença agora é que a informação pode ser compartilhada rapidamente e geograficamente .

Na verdade, há um relatório oportuno, publicado este mês pelo Centre For Social Justice, chamado “Lost Boys” que afirma que os meninos no Reino Unido estão “lutando na educação, mais propensos a tirar suas próprias vidas, menos propensos a conseguir um trabalho estável e muito mais propensos a serem pegos no crime” do que as meninas.

A Dura Verdade da Série Adolescência, da Netflix

O Contexto Cultural: Entendendo a Masculinidade Tóxica e as Influências Online

O que é preciso reconhecer — e ensinar as crianças a reconhecerem — é que os pontos de vista extremamente sexistas geralmente não são o que as crianças procuram.

Em vez disso, eles veem conteúdo de memes, vídeos bobos, talvez bate-papo em um site de jogos, tendências de saúde e fitness — tudo inocente o suficiente.

Mas quando eles clicam neles, os algoritmos entram em ação, enviando mais conteúdo dos mesmos criadores e de criadores semelhantes — que também têm conteúdo dessa natureza mais preocupante. Então, uma criança clica em um tema, o algoritmo envia mais e isso desce em espiral para visões extremas sobre mulheres e grupos minoritários na sociedade.

Para alguns meninos e jovens com atividades suficientes “na vida real” e contato com outros, eles serão capazes de ver que essas visões extremas não são comuns e que para se comunicar efetivamente na sociedade e contribuir para ela, você não pode ter esses pontos de vista.

No entanto, alguns jovens não se misturam tanto em círculos com visões diferentes e seus chamados “amigos” são encontrados nesses espaços online.

Precisamos entender e ensinar como a misoginia evoluiu – ensinar os pais, ensinar nossa família e ensinar as crianças.

Parte do conteúdo da imprensa está errado. Muitos incels, por exemplo, ririam se alguém os ligasse a Andrew Tate, pois para eles ele representa um “Chad”, ou seja, um homem que é sexualmente ativo com mulheres atraentes, um homem que tem dinheiro e poder. Precisamos todos, urgentemente nos educar sobre a terminologia e a prática.

Precisamos permitir a discussão – em vez de calar quaisquer visões “alternativas” sobre o papel das mulheres na sociedade, porque se nunca tivermos a discussão, nunca encorajaremos as crianças a compartilhar suas opiniões e a confiar que estamos interessados ​​nelas como indivíduos.

Sem Confiança, a Proteção é uma Tarefa Muito Mais Difícil.

Isso não significa que aceitamos as histórias tóxicas, mas ouvimos e fornecemos uma narrativa diferente — uma que uma criança que obtém informações on-line, com os algoritmos em ação enviando cada vez mais conteúdo extremista e violento para ela diariamente, talvez não ouvisse.

Considerações Curriculares: Navegando na Misoginia, Consentimento e Relacionamentos

O  #MeToo levantou um ponto muito importante sobre a misoginia na sociedade e abriu uma discussão enorme e bem-vinda sobre o que realmente é o consentimento informado.

O problema é que, sem uma consideração cuidadosa, as conversas podem, às vezes, levar jovens do sexo masculino, prestes a iniciar seus primeiros relacionamentos íntimos, a sentirem que já estão sendo considerados culpados de agressão sexual violenta contra mulheres.

Feministas vocais se tornaram mais visíveis na sociedade — o que não é algo ruim, dadas as gerações de danos não ditos causados ​​por homens às mulheres —, mas alguns meninos e homens jovens podem sentir que não conseguem abordar uma mulher com intenção romântica, temendo violar regras sociais não ditas e serem acusados ​​de serem sexistas ou abusadores.

Muitos homens têm dificuldade em compartilhar seus sentimentos por medo de serem vistos agindo de forma “pouco masculina”, o que pode fazer com que as vozes negativas online sejam mais altas. Então, precisamos de uma abordagem cuidadosa desses tópicos em nossos currículos.

​Masculinidade Tóxica e Construção da Identidade Masculina

A série destaca a internalização de visões distorcidas sobre gênero e poder por parte de Jamie, que vê as mulheres como objetos ou presas fáceis. Essa perspectiva é evidenciada em uma cena crucial com a psicanalista Briony Ariston (Episódio 3), onde Jamie expressa sua crença de que a vulnerabilidade feminina o coloca em posição de domínio.

Influência das Redes Sociais e Pressões Externas

“Adolescência” também lança luz sobre o impacto das redes sociais na formação da identidade e comportamento dos jovens. A trama explora como a constante exposição a conteúdos misóginos e comunidades online que promovem ideologias prejudiciais podem moldar negativamente a percepção de mundo dos adolescentes.

A parceria entre a série e o ex-técnico de futebol Gareth Southgate destaca a preocupação crescente com a influência negativa das redes, especialmente figuras que propagam modelos de masculinidade prejudiciais.

Saúde Mental na Adolescência

A série aborda de forma sensível e profunda as questões de saúde mental entre adolescentes. Jamie apresenta comportamentos que podem ser interpretados como sinais de transtornos psicológicos, como apatia emocional, falta de remorso e dificuldade em lidar com emoções complexas.

A psicanalista americana Ingrid Gerolimich observa que adolescentes frequentemente não possuem as ferramentas necessárias para processar adequadamente suas emoções, o que pode levar a reações dissociativas e comportamentos preocupantes.

Dinâmicas Familiares e Comunicação Intergeracional

As relações familiares desempenham um papel central na narrativa de “Adolescência”. A série expõe as dificuldades de comunicação entre pais e filhos, destacando como a falta de diálogo aberto pode contribuir para o isolamento emocional dos adolescentes.

O escritor Juan José Millás ressalta que a produção reflete uma realidade inquietante sobre o ambiente escolar e familiar, onde os jovens enfrentam um futuro incerto sem garantias de apoio adequado.

Implicações para a Educação e Sociedade

Devido à sua abordagem realista e aos temas relevantes, “Adolescência” tem sido recomendada para exibição em instituições educacionais no Reino Unido, visando fomentar debates sobre masculinidade tóxica, bullying e influência das redes sociais.

Essa iniciativa destaca a necessidade de integrar discussões sobre saúde mental e comportamentos saudáveis nos currículos escolares, preparando os jovens para enfrentar os desafios contemporâneos com resiliência e consciência crítica.

Conselhos para Pais

Diante dos temas abordados em “Adolescência”, é fundamental que os pais adotem estratégias proativas para apoiar seus filhos durante essa fase desafiadora:

  1. Estabeleça um Diálogo Aberto: Crie um ambiente onde seu filho se sinta seguro para expressar sentimentos e preocupações sem medo de julgamento. Conversas regulares fortalecem o vínculo e permitem que os pais identifiquem possíveis sinais de alerta.

  2. Educação Digital Consciente: Oriente seus filhos sobre o uso responsável das redes sociais, destacando os perigos de conteúdos prejudiciais e a importância de pensar criticamente sobre as informações consumidas online. Monitorar e discutir o conteúdo acessado pode prevenir influências negativas.Correio Braziliense

  3. Promova a Empatia e o Respeito: Incentive valores que enfatizem a importância de tratar todos com dignidade e respeito, combatendo ativamente comportamentos misóginos ou discriminatórios. Discutir os temas da série pode ser uma oportunidade para reforçar esses valores.Correio Braziliense

  4. Esteja Atento aos Sinais de Alerta: Observe mudanças no comportamento, humor ou hábitos que possam indicar problemas de saúde mental. Caso note algo preocupante, não hesite em buscar a orientação de um profissional especializado.Brasil Escola

  5. Participe Ativamente da Vida Escolar: Mantenha uma comunicação constante com a escola e esteja envolvido nas atividades acadêmicas e sociais de seu filho. Isso ajuda a identificar possíveis problemas, como bullying, e a trabalhar em conjunto para solucioná-los.CNN Brasil

  6. Busque Apoio Profissional Quando Necessário: Se perceber que seu filho está enfrentando dificuldades emocionais ou comportamentais, considere a possibilidade de procurar a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra especializado em adolescentes. A intervenção precoce pode fazer uma diferença significativa.

Conclusão

“Adolescência” é uma obra provocativa que desafia os espectadores a confrontarem questões complexas e muitas vezes desconfortáveis sobre a juventude moderna. Ao explorar temas como masculinidade tóxica, influência digital, bullyng, saúde mental, ódio  e dinâmicas familiares, a série oferece uma oportunidade de reflexão

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Sobre a autora:

Liliam Silva

Liliam Silva

Sou psicóloga clínica há 24 anos, ajudando pessoas a se conhecerem melhor e a superarem suas dificuldades emocionais, conflitos internos ou de relacionamento, estresse, depressão e desafios na vida profissional. O meu trabalho como psicoterapeuta(presencial e online) potencializa o desenvolvimento pessoal e profissional da pessoa que busca harmonia no seu cotidiano, qualidade de vida mental e a satisfação frente à vida.

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